Criaturas Crônicas

Crônicas e artigos publicados pelo escritor Oscar Bessi Filho.

Quinta-feira, Agosto 27, 2009

Chato

Jornal Ibiá, 27/08/09.

Coisa mais chata é ter que se livrar de um chato. Dureza. Estamos na rua, com pressa, não temos para onde fugir e ele aparece. Sorrisão anunciando que fomos premiados, é ele mesmo. Mala e cuia. Muito mais mala. Falando do que ninguém aguenta mais ouvir, mas precisa seu veredicto. Aos gritos. E pegando no braço da gente. Que chato é assim, já vai pegando no braço. Nada de só a mão. Ou a paciência. Chato é chato. O tempo é todo dele. O tempo, o vento e a vida alheia. A gente disfarça, pigarreia, resmunga microssílabos, ah, hum, ô. Faz cara de quem comeu rabanete com mumu. Nada. O sujeito fica ali. Sem se flagrar. Chato, que é chato, ou nem sonha que é, ou faz questão de chatear.

Alguém lançou dicas de como se livrar deles. Inúteis. Fingir que atende o celular, por exemplo. Chato nem dá bola. Conversa junto com o telefone. Para ele, temos uns dez ouvidos. Se facilitar, diz até alô pra gente. Ou tenta um triálogo, tipo, é o Zé?, hein, o Zé?, diz que eu tô esperando aquela costela. E grita, perto do celular, que está perto do teu ouvido, que está na tua cabeça que já começa a doer, ô Zé!, cadê minha costela? E dá gargalhada. Que todo chato se acha um Jô Soares. Engraçadíssimo. Genial. Um privilégio, estarmos com ele.

Fingir que não viu e seguir reto, só se existisse a invisibilidade. Que ele sempre vê. E vem. Nem adianta cumprimentá-lo sem parar de caminhar. Ele vai junto. Mesmo indo para o lado oposto, com hora marcada e atrasado, ele vai. É capaz de ficar na fila do banco com a gente. Teorizando. Gritando. E agarrando no braço. Aí deu. Só se ele achar um novo alvo.

Já tentei a nova técnica da gripe suína. O chato veio e nem deixei que me cumprimentasse. Tossi. Perguntei se ele sabia onde comprar máscara. Essa gripe, eu disse. Um perigo. Só de conversar, pegou. E pensei, agora ele sai correndo. Pff. O tipo soltou uma gargalhada. Gritou, para o centro inteiro ouvir, que ele era forte. Imune. Sem frescura. Aí, agarrou o meu braço. Gritou no meu ouvido. E discursou sobre Sarney, praça, Yeda e com quantos espirros se faz um tamiflu. Só faltou filosofar sobre o Grêmio fora de casa. Que chato é assim. Entende de tudo. Até o que ninguém consegue entender.

Quinta-feira, Agosto 20, 2009

Briga de Vizinhos

Jornal Ibiá, Coluna Semanal, 20 de agosto de 2009.

Tem gente que gosta disso. Baixaria. Ouve uns gritos e já corre para ver o que é. Não quer perder um detalhe. E, quanto mais palavrão e porrada, melhor. Fica inclusive decepcionado se o fuzuê termina. É capaz de meter uma provocação só para não deixar que agito acabe. Somos assim, sádicos. Debate sem político se engalfinhando é morno. Postinho sem algazarra não rola. Nós, os homo sapiens. Metade homo badernus, metade homo fofocus. Gostamos de circo. Se ele pegar fogo. Aí, tiramos foto e colocamos no orkut. Em briga de marido e mulher, chegamos bem perto e alcançamos a colher. O importante é ter o que falar.
No Reino da Bizarreia, estão ficando craques em baixaria. A mídia deitou e rolou com bate-boca no Senado, faniquitos palacianos e gravações a mil. Até que, na última semana, decidiu ela própria ter seus ataques de histeria. As duas maiores redes de televisão do Reino resumiram seus noticiários em ataques, contra-ataques e peripaques diários. Bispo que rouba de cá, aliado da ditadura que já roubou de lá, e por aí vai. Infelizmente, com isso os dois ainda ganham audiência. É uma novela. Todos querem saber a próxima maracutaia que o outro revelará, na voz de seus locutores galãs fingindo indiferença ou estardalhaço. Por um lado, é bom. A vantagem de dois gigantes se engalfinharem é ver como eles jogam, um na cara do outro, suas maracutaias antes compartilhadas. Os detalhes sórdidos e sátiros. Ainda mais quando aliados - caso do Senado - ou achacadores, de jeito muito parecido, da mesma cumbuca - a grande mídia. Igual briga de vizinhos. Um sabe o podre do outro. Da hora em que o arroz queimou até o gato na luz de vinte anos atrás. Além daquela noite dormida na varanda. O melhor era ficar quieto.
Porém, há solução. Por mais que a demência seja parte de nossa natureza esquisita (sim, somos seres esquisitos, fazemos dieta, ouvimos Calypso e ainda torcemos para o Grêmio - eu, no caso, só faço dieta). Nós, aqui, temos a TV Cultura. Então digamos não às tevês da Bizarreia. Só vamos assistir TV Cultura. O dia todo. À noite também. Nada de Juliana Paes ou Ana Hickmann. Troquemos as duas pelo Leandro Utzig. Que tal?

Quarta-feira, Agosto 19, 2009

Polícia para quem precisa

Jornal Ibiá, 13 de agosto de 2009.
Coluna semanal.


Responda rápido. Quem rouba mais? Quem mete mais a mão no bolso do cidadão, um assaltante armado ou um gestor público corrupto? Difícil, esta. O que é pior, perder os últimos trocados da carteira, ou o filho, jogado no corredor de um hospital público, sem atendimento? Qual a diferença entre bandidos que se reúnem para sugar os cofres públicos e os traficantes que se entrincheiram na favela? Quem destrói mais a nossa juventude? Que diferença moral há entre uma licitação fradulenta e o assalto a banco? Canetas ou fuzis? Quem, de verdade, faz o crime organizado neste país?

No Rio, aplaude-se uma ocupação policial intensa - e de fato necessária - numa favela do Realengo. Junto a esta ocupação, finalmente descobriram que é necessário investir na presença do Estado naquelas localidades. Sáude, habitação, esgoto, educação e por aí vai. Não adianta mandar só a polícia fazer guerra na periferia. Tem que dar cidadania. Oportunidade, caminho e perspectiva. Auto-estima. Mas a humanidade é assim. Demora para ver o óbvio. Levou milênios para desconfiar que a terra é redonda, então, para se tocar que dinheiro público é do povo, talvez demore muito mais.

Bela política de segurança pública, dizem alguns. Talvez. Mas tem mais mosca nessa sopa. Não é só favela que precisa ser ocupada pela polícia. Tem palácio e condomínio de luxo carecendo de uma ação vigorosa em defesa da sociedade. Quando se prende pobre, multa pobre, caça pobre, aplausos. Agora, quero ver confiscar a cumbuca dos donos do poder. Aí a vaca vai pro brejo. E a ratazana também. Fim da polícia bacana. Valorosa. Comunitária. Vem ministro, governadora, senador, deputado e comentarista da perna cruzada dizer que policial só quer aparecer. O Ministério Público quer dar show. Que, ah, não precisa prender, nem algemar, nem mostrar para a população, ó, estes são os que roubam vocês. Ladrão de galinha, tudo bem. Pode mostrar o tipo escabelado, faminto, pisoteado pelo sistema. E chamá-lo lo de meliante. Homens de terno e gravata importada não. Esses merecem respeito. Mesmo que não respeitem nem a mãe deles. Enfim, algema em pulso de miserável é eficiência. Em pulso de ouro, é abuso.