Processar se tornou um bom negócio. E uma arma. Sujeito está em casa, cansado do Leandro Utzig na tevê, decide: está na hora de ganhar um dinheiro fácil. Então processa. Quem o chamou pelo apelido, o vizinho que confirmou seu nome pro carteiro, o cão que fez xixi no jardim ou todo o time do Internacional enquanto consumidor. Fácil. Há, também, quem precise ameaçar, afastar, tentar encobrir ou fazer calar, aí esbraveja, eu processo! Não me conserto e não encaro, mas processo. Virou moda. Assim como repassar culpa. Outra moda. A praça está destruída? Coisa dos pombos. Ah, nem os pombos iam mais lá? Então foram as toupeiras. As toupeiras vez em quando invadem as praças. E destróem pombo, praça, tudo. Se não cuidar, acabam com a cidade inteira. Toupeiras são terríveis!Dia desses, um jornal eletrônico de notícias ímpares noticiou que um prefeito, por aí, decidiu processar São Pedro. Tanta chuva, tanto prejuízo em sua cidade, o que o homem lá em cima estava pensando? Que ele ia pagar a conta sozinho? Com essa carga tributária tão ínfima, que mal dá para quitar os favores de campanha? Alagamentos, enchentes, ruas interditadas, casas destruídas, gente sem ter para onde ir, tudo isso só no dele? De mais a mais, havia um decreto na cidade proibindo chover mais que o permitido. São Pedro não leu? Aquele caos não era culpa dele, não era mesmo. Processou.
Fiquei imaginando o caso. Abuso de autoridade? Favorecimento? Desvio público de tormentas? Alguma ligação com o Sarney? Não sei onde enquadrariam o santo. A defesa alegaria estrito cumprimento do dever legal - mandar chuva sobre os mortais - e traria São Jorge como testemunha, aproveitando as comemorações da chegada do homem à lua. Pobre é da Promotoria. Eu ficaria com medo de, depois, ser dispensado para o andar de baixo, sem argumentos. Se bem que, se fosse por medo de represália, não havia mais Promotor. E São Pedro, é claro, não viria para o julgamento. Seria condenado à revelia. Rá! Aí que eu quero ver. Quem vai buscá-lo lá em cima? Quem?
Toupeiras, talvez. Toupeiras sempre se metem onde não são chamadas. Ruim é que nós, sempre nós, é que pagamos o preço dos rombos que elas deixam.


