Criaturas Crônicas

Crônicas e artigos publicados pelo escritor Oscar Bessi Filho.

Quinta-feira, Julho 30, 2009

São Pedro e as Toupeiras

Jornal Ibiá, edição de quinta-feira, 30 de julho de 2008.
Processar se tornou um bom negócio. E uma arma. Sujeito está em casa, cansado do Leandro Utzig na tevê, decide: está na hora de ganhar um dinheiro fácil. Então processa. Quem o chamou pelo apelido, o vizinho que confirmou seu nome pro carteiro, o cão que fez xixi no jardim ou todo o time do Internacional enquanto consumidor. Fácil. Há, também, quem precise ameaçar, afastar, tentar encobrir ou fazer calar, aí esbraveja, eu processo! Não me conserto e não encaro, mas processo. Virou moda. Assim como repassar culpa. Outra moda. A praça está destruída? Coisa dos pombos. Ah, nem os pombos iam mais lá? Então foram as toupeiras. As toupeiras vez em quando invadem as praças. E destróem pombo, praça, tudo. Se não cuidar, acabam com a cidade inteira. Toupeiras são terríveis!

Dia desses, um jornal eletrônico de notícias ímpares noticiou que um prefeito, por aí, decidiu processar São Pedro. Tanta chuva, tanto prejuízo em sua cidade, o que o homem lá em cima estava pensando? Que ele ia pagar a conta sozinho? Com essa carga tributária tão ínfima, que mal dá para quitar os favores de campanha? Alagamentos, enchentes, ruas interditadas, casas destruídas, gente sem ter para onde ir, tudo isso só no dele? De mais a mais, havia um decreto na cidade proibindo chover mais que o permitido. São Pedro não leu? Aquele caos não era culpa dele, não era mesmo. Processou.

Fiquei imaginando o caso. Abuso de autoridade? Favorecimento? Desvio público de tormentas? Alguma ligação com o Sarney? Não sei onde enquadrariam o santo. A defesa alegaria estrito cumprimento do dever legal - mandar chuva sobre os mortais - e traria São Jorge como testemunha, aproveitando as comemorações da chegada do homem à lua. Pobre é da Promotoria. Eu ficaria com medo de, depois, ser dispensado para o andar de baixo, sem argumentos. Se bem que, se fosse por medo de represália, não havia mais Promotor. E São Pedro, é claro, não viria para o julgamento. Seria condenado à revelia. Rá! Aí que eu quero ver. Quem vai buscá-lo lá em cima? Quem?

Toupeiras, talvez. Toupeiras sempre se metem onde não são chamadas. Ruim é que nós, sempre nós, é que pagamos o preço dos rombos que elas deixam.

Quinta-feira, Julho 23, 2009

Paranoias

Jornal Ibiá, quinta-feira, 23 de julho de 2009
Não adianta. A humanidade é paranoica. Ou hipocondríaca. Ou muito esperta, nalguns casos. Mas só nalguns casos. Que tirar proveito de tudo, ô, não é para qualquer mortal. Tem que ter talento. Praticar isto diariamente, feito exercício físico. Assim são os ladrões. Os corruptos. Os vendedores de terreno no céu e os roteiristas de novela. Vivem disso. Aliás, li a manchete de um jornal, trinta anos atrás. Movimento declara guerra à corrupção no Brasil. Ah. Deve ter sido uma guerra injusta, pelo jeito que a coisa anda. Os adversários devem ter usado armas químicas, ou biológicas. Ou psicológicas. Só sei que se deram bem. Trinta anos e aqui estamos. Desse jeito. Em 1979, lembro, eu era uma criança feliz. Cheguei em Montenegro, meu time foi campeão nacional e o General Figueiredo era apenas um senhor simpático que andava a cavalo. Eu acreditava em disco-voador e que o Monstro do Lago Ness existia. Guerra contra a corrupção? Não lembro. Acho que não dei bola. Afinal, para histórias da carochinha eu já estava bem grandinho.

Os espertos são assim. Percebem nossa paranoia, nossa fácil histeria coletiva, nossa sede íntima de uma boa desculpa. É. Para não ir trabalhar, para não ser tão honesto, para colar na prova de matemática e cruzar o sinal vermelho. O que queremos é uma boa desculpa. Ou várias boas desculpas. A bola da vez é a gripe suína. Para explicar a saúde pública caótica, as emergências lotadas e, pasmem, cogitar a volta da CPMF. Não sei como não colocaram nela a culpa pela morte do Michael Jackson. E da zaga do Inter. Pobres suínos. Entre eles, devem pensar que a doença humana fez muito pior, mas ficam frios. E viram frios, também. Que a doença humana é o que mata mais neste mundo. O homem mata os outros. Mata o planeta. O homem mata o homem, quando não tem mais o que fazer. Mas, com raras exceções, não fica histérico nem horrorizado com a sua própria presença.

Máscaras, eis a saída. Mascarar sempre foi a solução e trouxe a humanidade até o terceiro milênio. Vou comprar uma máscara, também. Para assistir o noticiário. Quem sabe assim escapo do contágio do senador. Que, confesso, neste caso ainda sou meio paranoico.

Sábado, Julho 18, 2009

Cenas da Bizarreia



Tem clássico na Bizarreia. O time azul perdeu igual ao vermelho – imitou escore e desespero -, embora nem tenha chegado à final, como o outro. Mas diz estar embalado. Não está entre os primeiros, porém isto não importa. Está bem. Muito bem. Ganhou daqueles cuja camiseta, outro dia, vestiram entusiasmados, tudo em nome da derrota alheia. Que a derrota alheia é melhor que uma vitória própria. O vermelho não se importa. De campeão de tudo, virou vice-campeão de tudo, mas afirma: seu treinador é bom. Perde, mas é bom. Não forma ataque, nem defesa, não empolga, não comanda, não explica ao time que a bola é aquele negócio redondo que pula de um lado para o outro no gramado - e, por favor, não morde – e precisa entrar entre aquelas três traves que seguram uma rede. Entre. Não sobre, nem ao lado, nem na arquibancada. Mas é bom, o treinador. E, embora só tenha títulos azuis no currículo, merece toda confiança.
Ainda bem que nem só de futebol vive a Bizarreia. Vive também de discussões. O fantasma na casa do Michael Jackson. Importante. Quem vai ficar com Muricy. Fundamental. O último silicone da Vera Fischer. Os atos, desacatos e carrapatos do senador. Bom saber, embora nunca se saiba exatamente de tudo. Nem dos todos. Aliás, tentam convencer que o bom mesmo é nem saber. E saltitar atrás do trio elétrico. Ainda que dê choque. Rindo, a gente não sente. Ainda mais banguela.
Agora a Bizarreia debate um novo problema. Segurança pública. Novíssimo. Um incauto ainda se meteu a avisar: tudo que não se quer resolver, se discute. Sempre foi assim. E tudo continua como está, como sempre esteve. Disseram que ele distorcia as discussões discutidas do disco um ao novecentos. E nunca mais o convidaram. E discutiram.
Conclusão brilhante, após estudos quânticos e teorias sobre conspirações interplanetárias e reparações freudianas: tem muito crime, na Bizarreia. E muito bandido. Cada vez mais. O que fazer, perguntaram, escabelados, os entendidos, os intrometidos e os oferecidos. O que fazer?
Simples. Terminar com a polícia. Óh! Aplausos emocionados e intervalo. Afinal, tem que se dar um tempo para discutir o futebol.

Domingo, Julho 12, 2009

A Professora Izabel

Jornal Ibiá, coluna semanal de 09/07/2009.

(na foto acima, a Professora Izabel, numa matéria que o jornal fez sobre os 100 anos da Estação)

Dia desses, reencontrei uma professora muito especial. Maria Izabel Funk Nonemacher. Ela é a culpada de, hoje, eu escrever assim. Insistentemente. E tudo começou num embate. Não que eu fosse um mau aluno, mas era dos que sentam no fundo da sala. Sabe como é. Um dia matei aula para jogar bola. Havia uma redação para entregar e a deixei com um colega. Meu erro. Izabel leu e até gostou. Mas me deu zero.

Zero! E meu time ainda perdeu o jogo. Na aula seguinte, implorei para que ela acreditasse que a redação era minha. Izabel julgava que eu tinha dado para alguém fazer. Simples: eu era um aluno do fundão. Que matava aula para jogar bola. Desarmado, a desafiei: redigiria um texto ali, na sua frente, e o faria melhor que o outro. Para meu desespero, ela aceitou. Suei frio, tremi, tive dor de barriga. Mas fiz. E ela, ufa!, gostou.

Virou uma amiga, espécie de irmã mais velha no São João. Na construção literária, apoiou, ensinou estilos, lapidou textos, encurtou frases e dispensou palavras. Inscreveu-me em concursos - num fui premiado, noutro venceu um texto que ela descobriu ser plágio do Sabino. Pegou meu primeiro poema, "A Menina da Janela", puro romantismo juvenil, e disse que até estava bom. Mas não precisava enfiar panelas e cadelas banguelas nos versos só para rimar com o título. Anos depois, no meu primeiro prêmio literário, lembrei dela. A Izabel. Que chegou até a me dar a dica: um novo jornal abriria na cidade, quem sabe eu não tentava um emprego, já que queria cursar jornalismo e gostava de escrever. A vida me levou para outro lado. Porém, aqui estou, escrevendo justamente onde ela cogitou me ver um dia. Profética, a Mestra. Que disse ao aluno do fundão que ninguém precisa parecer nada. Tem é que, de fato, ser.

Foram milhares de alunos e talvez ela nem lembre nada disso. Mas foi muito bom reencontrá-la. Fiquei meio emotivo nesta coluna e vou remediar me torturando com o teipe do Inter na final da semana passada. Pior é revisar a coluna mil vezes. Vai que ela leia. E, definitivamente, se frustre com seu trabalho. Ou uma manifestação de leitores que me odeiam acampe no seu pátio, julgando-a culpada. E é. Definitivamente, ela é a maior culpada.




Duas lembranças

Jornal Ibiá, coluna semanal de quinta-feira, 02/07/2009



(a charge acima nos faz pensar no tipo de esquerda que temos hoje em nosso país. Caricata, oportunista ou apenas estratégica?)


Na última semana, tive uma lembrança boa e outra ruim dos anos 80. Ruim foi ouvir do presidente - justo quem era a esperança juvenil de democracia, justiça social e aquilo tudo que a gente imprimia em panfletos estudantis, contra as ditaduras econômica e cultural deste país - que nossa polícia não presta. Só entra em vila pra bater. E prender negros. Caramba! Que discurso vencido! Cadê a assessoria pra lhe contar o que acontece no Brasil?

Concordo, Lula é um presidente melhor que muitos outros. Também, o parâmetro é medíocre. Comparar Maxi Lopez com o ataque do Aimoré não tem graça. Quero ver o seu máximo. O problema, de certos tipos, é falar com facilidade do que não sabem. Talvez porque nunca chegam perto da realidade. Nem querem saber dela. Ele, e outros aí, das mais variadas siglas, precisam aulas de polícia comunitária. As que nós temos há anos. Visitar trabalhos feitos por policiais civis e militares por este país afora, saber resultados.

Só no RS, somos meio milhão de ativos, inativos e familiares. Muitos mutilados ou chorando ausências. Há quem entra desarmado na perifeira por seu trabalho social. Gente que prende quem precisa e cujos filhos merecem, pelo menos, respeito. Ainda mais do presidente. Todo setor público tem problemas. Inclusive as polícias. Mas o problema maior está bem mais acima. E é feio generalizar. E policiais, como professores e profissionais da saúde, estão justamente onde os políticos são mais ausentes.

Noutro dia, ouvi o mesmo tipo de bobagem de um caricato político local. Um sujeito que, após uma vida na direita (até na ditadura), de repente acordou esquerda. E radical. Com meia dúzia de discursos tão enrolados quanto exibicionistas e confusos. Veio defender traficantes de um bairro cujos moradores de bem - a maioria - agradecem todos os dias nossas ações. Claro, ele só vai àquela comunidade pra plantar palanque futuro, nem sabe o que acontece. Nunca pisou na lama com um policial e quer dar pitaco. Mas a comunidade vê. E sabe diferenciar.

Gente assim perde o respeito. E o amigo. Mais um pouco, ganham ferrenhos cabos ANTIELEITORAIS.

Ah, a boa lembrança? Conto semana que vem.