
Desprezado senhor. Venho, por meio desta, dar-lhe um conselho. Dizem que se conselho fosse bom a gente vendia. Ou traficava - no seu caso. Mas, se é verdade que quem avisa amigo é, não custa nada ouvir o inimigo mesmo. Afinal, quando o negócio aperta, qualquer saída é lucro. Menos continuar neste ramo. Aí é prejuízo. Na certa.
Alguns já perceberam que vender pedra virou pedra no sapato de muita gente. Que do pó ao pó não retornarás - pelo menos não tão cedo, que a cana é dura. E que erva boa é para chimarrão. O resto dá problema. Então, aceite meu conselho: mude de ramo. Desista. Dê uma de Sandy e Júnior e pare tudo. De repente. Isso de dinheiro fácil não compensa. O Maluf que o diga. Melhor ser um trabalhador normal, enfrentar SPC, Serasa e impostos de toda ordem. Com suor dá mais prazer, vai por mim. E não corre o risco de acordar com polícia derrubando a porta.
O negócio vai ficar cada vez mais difícil, acredite. Muita gente está de olho em vocês. Poder Judiciário, Ministério Público, Polícia Civil, Brigada, Conselho Tutelar, Montenegro contra o Crack, torcida do Renner. Uma comunidade inteira no rim de vocês. Se não der cadeia, é insuficiência renal certa. Pudera. Não se acaba com o filho dos outros à prestação e fica tudo por isso mesmo. Tudo tem seu troco.
De mais a mais, não é um negócio inteligente. Vender tudo escondido, desconfiado até do cliente, e nem pensar numa propagandinha no rádio, ou no jornal. Paga olheiros, mulas, capangas, vende de pouco em pouco e ainda é pago com coisas roubadas. Até calçola da avó já trocaram por droga. Não dá. Para fechar, cai em cana. E só de advogado gasta muitas vezes mais que o lucro do tráfico. Fora as outras despesas obrigatórias, na cadeia, tipo a sobrevivência da masculinidade. Que é dura. Vocês nem tem uma Associação Comercial de Traficantes para lhes defender. Ao contrário, um quer mais é que o outro se dane.
Pois é. Agora, se ser honesto não é tua praia mesmo, então vá para Brasília. Trafique umas passagens aéreas, na maciota. Aí não mata mais os filhos dos outros. Quer dizer, pelo menos não assim, tão diretamente.











