Criaturas Crônicas

Crônicas e artigos publicados pelo escritor Oscar Bessi Filho.

Domingo, Maio 31, 2009

Carta ao Traficante

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 28 de maio de 2009.



Desprezado senhor. Venho, por meio desta, dar-lhe um conselho. Dizem que se conselho fosse bom a gente vendia. Ou traficava - no seu caso. Mas, se é verdade que quem avisa amigo é, não custa nada ouvir o inimigo mesmo. Afinal, quando o negócio aperta, qualquer saída é lucro. Menos continuar neste ramo. Aí é prejuízo. Na certa.

Alguns já perceberam que vender pedra virou pedra no sapato de muita gente. Que do pó ao pó não retornarás - pelo menos não tão cedo, que a cana é dura. E que erva boa é para chimarrão. O resto dá problema. Então, aceite meu conselho: mude de ramo. Desista. Dê uma de Sandy e Júnior e pare tudo. De repente. Isso de dinheiro fácil não compensa. O Maluf que o diga. Melhor ser um trabalhador normal, enfrentar SPC, Serasa e impostos de toda ordem. Com suor dá mais prazer, vai por mim. E não corre o risco de acordar com polícia derrubando a porta.

O negócio vai ficar cada vez mais difícil, acredite. Muita gente está de olho em vocês. Poder Judiciário, Ministério Público, Polícia Civil, Brigada, Conselho Tutelar, Montenegro contra o Crack, torcida do Renner. Uma comunidade inteira no rim de vocês. Se não der cadeia, é insuficiência renal certa. Pudera. Não se acaba com o filho dos outros à prestação e fica tudo por isso mesmo. Tudo tem seu troco.

De mais a mais, não é um negócio inteligente. Vender tudo escondido, desconfiado até do cliente, e nem pensar numa propagandinha no rádio, ou no jornal. Paga olheiros, mulas, capangas, vende de pouco em pouco e ainda é pago com coisas roubadas. Até calçola da avó já trocaram por droga. Não dá. Para fechar, cai em cana. E só de advogado gasta muitas vezes mais que o lucro do tráfico. Fora as outras despesas obrigatórias, na cadeia, tipo a sobrevivência da masculinidade. Que é dura. Vocês nem tem uma Associação Comercial de Traficantes para lhes defender. Ao contrário, um quer mais é que o outro se dane.

Pois é. Agora, se ser honesto não é tua praia mesmo, então vá para Brasília. Trafique umas passagens aéreas, na maciota. Aí não mata mais os filhos dos outros. Quer dizer, pelo menos não assim, tão diretamente.

Domingo, Maio 24, 2009

Futuro

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 21 de maio de 2009.



Fico pensando. Que espécie dominará o planeta no futuro? Claro, se o planeta chegar lá, no futuro. É bom saber. Para a gente se prevenir e levar o que dá, antes que o mundo acabe, ou a Receita Federal confisque. Para quem passaremos o bastão? Os contratos com empreiteiras, os relatórios das CPIs, as cotas de publicidade? Que não dá para entregar o mundo assim, de mão beijada. Afinal não foi fácil chegar até aqui. Ou alguém acha que é mole destruir a fauna e a flora, inventar o hambúrguer e invadir o Iraque? De Hitler ao cinema japonês, passando pela seleção argentina, muitos já tentaram acabar com a gente. Sobrevivemos. E queremos garantias. Os dinossauros, por exemplo, foram uns ingratos. Comeram o que puderam, se empanturraram e desapareceram. Pelo menos eles não poluíram a Terra. Nem construíram Brasília. Em compensação, deixaram só o que não prestava. Inclusive nós mesmos. E nem perguntaram se a gente queria assumir, se não cabia um governo de transição, por exemplo, dos babuínos, mais moderados. Ou dos burros, já que ia dar tudo nisso mesmo. Defendo, aliás, uma tese: a humanidade já se foi. A gente é que não viu. Homo sapiens? Já era. Essas criaturas que andam por aí, nada sapientes, depredando o que encontram e se matando, não podem ser humanos. Devem ter vindo de algum planeta de má índole. Tomaram conta das mentes, começando lá por cima, tipo fraude na previdência. E, aposto, estão disfarçados de pino invisível no banco dos carros. Já viram certos homens de carro, como se transformam? Mutantes agressivos. Tiranossauros rex, na versão que não come ninguém, mas se acha a fera. É isso, fomos dominados e ninguém nos avisou. Nem a NASA, nem o Protógenes. Deixamos de ser humanos. Por isso vamos deixar quase nada do planeta, fora umas verbas públicas bem escondidas e essa penca de vírus novo. Só não levo fé que nossos sucessores sejam as baratas. Elas são fortes, mas não a ponto de encarar certas sujeiras que inventamos. A tendência é que as moscas assumam. Sim, as moscas. Na verdade, já deixamos nosso planeta às moscas. Um que outro ainda não viu. Ou não quis ver.

A Mãe do Badanha

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 14 de maio de 2009.



Encontrei o Badanha no centro, acabrunhado. Lia um desses panfletos que, mancomunados com tickets de estacionamento e cocôs de passarinho, dedicam-se a aniquilar pára-brisas de carros. Sujeito puro, perdeu as espinhas da adolescência há algumas décadas, mas ainda crê em coisas como amor livre e Monstro do Lago Ness. E, claro, quer mudar o mundo. Nem que tenha que pedir CPI e entregá-lo aos ETs (ou ao presidente do Supremo, mas isso foi antes do Gilmar Mendes). Ele tem uma teoria para o caos: foi Deus dar uma descansada de um dia e os ratos tomaram conta. Imagine, então, se Ele tivesse sindicato. O Sindicriamundo. E entrasse em greve por férias, jornada semanal e licença-paternidade. Multiplicada, que ser de Pai de todos não deve ser sopa. Dá para imaginar Deus de folga? O planeta já teria explodido, a fauna desaparecido, o Celso Roth retornado. Até achei que o Badanha, ali. Não. Estava triste porque esquecera o dia das mães. Não adiantava mais comprar presente, nem visitá-la, ele disse. Opa! Como assim?

Acontece que ele é muito bonzinho, mas só lembra da mãe quando precisa. Não é o único. Olha o escândalo das passagens aéreas. O povo arcar com viagens de mulher de parlamentar, tudo bem. Às mães, que os colocaram no mundo (e lá fomos nós que os colocamos, elas não têm culpa de nada), nem pelota. É uma campanha universal contra a figura materna. Talvez visando a família, a escola, a ordem ou qualquer outra proteção contra o caos. Tem mãe que já precisa chamar a polícia para fazer o filho obedecer. Tem mãe tão novinha que nem sabe que é mãe, tem mãe jogando filho no lixo. Aí, deu. É o auge da crise de valores, pior que crise da bolsa e mais virulenta que gripe suína. Mãe é mãe. Mais que um simples dia, mais que um cartão colorido e tchau. Mãe é vida. Origem, essência, referência. Tem que saber o que é. Saber ter, saber ser. Muito mais que a atenção burocrática de meio dia e fim de papo. Um domingo não redime a humanidade. É tipo CPI. Peito estufado com voz carregada, depois chá de sumiço, qualquer um. Tem é que ir além. Muito além.

Tá complicado

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 30 de abril de 2009.




Cornélius, o Inquisidor, jogou a toalha. E água na fogueira. Desistiu mesmo, limpou a faca no joelho e murchou num chimarrão frustrado. Não dá, ele me disse, não dá. Se jogar na fogueira os responsáveis pela baderna, não sobra viva alma sobre nosso país tropical. Olha isso, das passagens aéreas. Que deputados metem a mão, a gente já se acostumou. Agora, a Comissão de Ética da Câmara na falcatrua? De Ética? Aí dói. Agora dá pra dizer que generalizar não é pecado, sobre o caráter político nacional. Não é. Agora, pasmem, o Tribunal de Contas da União também se perdeu nas contas, contou com passagem indevida e mergulhou de toga e tudo na lama. É dose. País mais sem educação, este. Sem educação, é, mas conseguiram dar um jeito de desviar verba até no ProUni. Aí deu. Nossa degeneração moral tá pior que epidemia do crack e gripe suína. Pegou todo mundo. Como é que vai se condenar alguém num randevu desses?, ele questionou. E o pior de tudo é que pedir justiça ficou meio esquisito, depois do episódio Daniel Dantas e aquele festival de polícia prende, STF manda soltar. Tá num ponto em que ministro do Supremo, Gilmar Mendes, já precisa implorar pelo respeito que perdeu. Tá difícil, Cornélius. Ser brasileiro anda mais complicado que torcer pelo Aimoré. Mas, sei lá, deve ter umas luzes de honestidade perdidas por aí. Meio sem pilha. Mas tem.
O problema é o trauma no cotidiano. A gente sai à rua pensando que vai ser achacado, enganado ou assaltado – neste caso, o assaltante é o mais ético de todos, pois diz claramente que quer te roubar. Sorteio que não sabe se paga o prêmio, consórcio que evapora, produtos cujos ingredientes ou pesos nunca fecham com a embalagem, serviços que não se confirmam, coisa pública a beneficiar o privado, privatização que não se publica, falcatrua, falcatrua, falcatrua. Um pirulito para uma criança precisa ser checado antes de abrir. E, se alguém te estende a mão na rua, o negócio é sair correndo. Ainda mais se ele estiver sorrindo.
E teve gente que, um dia, acreditou que o que acabaria com o planeta seria a pobre da bomba atômica.

Cupins no Senado

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 26 de março de 2009.




Meu amigo, o Comissário Tavares, anda preocupado. O jeito que a coisa anda. Fosse só o crack, pra gente combater. Mas tem o Senado. É muita droga ao mesmo tempo. Uma vem por baixo, a outra por cima, e o cidadão vira presunto no sanduíche. Presunto que morre de fome, de vício e bala perdida. Traficantes e senadores, os carrascos do Brasil.
Dia desses apanhamos um ladrão que argumentou. Renan Calheiros solto e ele ali, algemado, só por causa de um som. Tá, um som, dois pares de tênis, três garrafas de uísque e um órgão sexual masculino de borracha. Que não era dele, se apressou em confessar. Não era dele. E abriu o jogo.
Revelando ser viciado em crack, jogou pedras para todos os lados. Fora funcionário do governo. E, antes de roubar dezoito televisões, via o noticiário. Sabia do esquema dos cupins. Um esquemão, revelou. Todo mundo ganhava. Prós e contras. Concursados, terceirizados e cargos acochambrados. O esquemão do cupim.
Começou na descoberta de um foco. Contrataram a dedetizadora do primo de um senador, que fez mil dedetizações durante um ano. Ninguém viu, mas fez. Tá no recibo e na rubrica federal. Os cupins não só ficaram, como multiplicaram. Decidiu-se, então, pagar auxílio-cupim para cada senador, afinal aqueles insetos geravam despesas. E viagens. E contrataram mais alguns diretores. O diretor geral de cupins e outras verbas com asas, mais um diretor para cada programa, como o Previdência Cupim, Bolsa-cupim, Fundo Pró-cupim, Plano Cupim na Escola, Força Nacional Inseticida e, claro, uns dois diretores para as garagens. De cupins. Além de outros cento e poucos sem funções definidas, mas fundamentais à lisura do processo.
Brasileiros que somos, perguntamos: e daí, qual o problema? Se havia cupins, bom o Senado investir na questão. Ele riu. O ladrão. O que fumava crack, arrombava casas e disse que seu sonho era chegar a Renan Calheiros. É um filão de dinheiro, esse negócio, ele disse. Tipo seca no nordeste. Terminar com o cupim no Senado mais caro do mundo? Só se acabarem com as caras-de-pau que os alimentam.
Ah, pois é. Difícil.

Assuntos Muito Importantes

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 19 de março de 2009.


Basta abrir uma publicação dessas que se ocupam de assuntos essenciais, como a lipo de uma atriz da novela das oito, os quilinhos do Fenômeno ou estatísticas sobre quem mostra mais peitos no Big Brother, e verificar. Nossos conceitos de normalidade andam defasados. As urgências de um mundo impulsivo, às vésperas da última gota do aquecimento global, são outras. A humanidade caminha em círculos, e não é porque está regredindo ou tomou todas num festerê globalizado. Um jornal inglês, por exemplo, deu destaque à aeromoça tcheca que faz filmes pornôs nas horas de folga. Querem saber o que ela serve, nos vôos, além de uísque aos passageiros. Importante, isso. Muito importante.

Nos EUA, um macaco pirou quando defensores dos direitos dos animais discutiram com o seu treinador, no circo. Fugiu, indignado. E abandonou sua namorada grávida. Ele não sabe o que faz, ponderou alguém. Tem sentido.

No Alasca, o Campeonato Mundial de barba e bigode movimenta a economia local. Fabricantes de giletes foram os únicos a protestar, não é hora para torneios dessa natureza. Em plena crise mundial! Relevante.

Já os deputados de Nova Iorque estão votando o projeto de pedágio aos stripteases. Não é só o Brasil que se inventa o que cobrar. O Texas já tem este imposto e especialistas dizem que o resultado é positivo. Estão até pensando em criar um seguro-ereção, também. Os interesses dos produtores de comprimido azul e ovos de codorna é que amarram a implantação.

Sexo, aliás, é sempre delicado. E urgente. A justiça britânica condenou o inglês que fazia sexo com sua caixa de correio. Seus advogados protestam, nem se ouviu a caixa, para saber como ela se sente. E, na Itália, sexo com camisinha é motivo legal para anular o casamento. Riscar fora da caixinha ficou ainda mais perigoso.

E nós aqui, preocupados com a questão ambiental, violência, crise financeira. Reunindo os diversos setores da comunidade, preocupados em combater a epidemia do crack. Montenegro virou exemplo para o país.

Mas o mundo está preocupado com isso?

Volta às Aulas

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 05 de março de 2009.





Nem aí, o Vitorino. Jogou tudo para a mulher. Tinha que sair cedo, trabalhar, aquela coisa. Ela que levasse os quatro filhos no primeiro dia de aula. Cinco, a Vera corrigiu, irritada. Cinco! Ah, é. Esqueceu que o Vitorino Júnior começava o pré naquele ano. O tempo passa, hein, murmurou. E se foi.
E foi logo o Vitorino Júnior que, de cara, deu o primeiro problema. De nada adiantou apito, pirulito, palhacinho com pisca-pisca. Agarrou as pernas da mãe e abriu o berreiro. Não queria ficar, de jeito nenhum. A professora repetia, neném bunitinhu, tó, não sóla, titia vai bincá contigo, gudi-gudi. Mais berreiro. Nisso volta o Vicentinho, fulo da vida. Tinha descido do carro faceiro, primeiro ano, agora era dos grandes e ia sozinho para a sala. Não foi chamado na fila de entrada e se enfezou. Todos os filhos tinham nome que começava com vê. E nome com vê demora a ser chamado. Com o Vitorino Júnior agarrado às pernas, foi até à aula do Vicentinho. A profe só disse que chamou, sim, mas na hora o guri saiu correndo. Em lágrimas, ele disse que o Gui e o Bê tinham mochila do Batman. Ele também queria mochila do Batman. Não ia à aula sem uma mochila do Batman. Ela tentou argumentar, aquela do Cascão era tão bonita! Ele tinha gostado tanto! Não, agora ele queria a do Batman. Outro berreiro. Berreiro duplo.
No corredor, veio a orientadora educacional da escola. O Vitalino, disse a mulher. Vera suspirou. O que houve com ele? Tá na direção, trocou o uniforme por uma camisa do Inter e agarrou uma bola, dizendo que não quer mais estudar, quer ser jogador. Com os pequenos em guerra de beliscões entre suas pernas, foi falar com o filho do meio. Não quer ser alguém na vida, guri? O menino a encarou, sério. Ih, mãe! Olha o pai. Cheio de faculdade e só reclama das contas. E as professoras? Quero ter é o vidão do Ronaldinho. Já viu gente que estuda ser chamado de fenômeno? Ela suspirou. Esse, pelo menos, não saiu entre as pernas, mas resolveu levá-lo. Precisava pesquisar uns argumentos.
Encontrou a mais velha, Valentina, que já veio estendendo uma lista de livros. Ai, meu deus, ai meu deus! Ah, e pediram compasso, pasta especial, tabela periódica e jogo de réguas, disse a menina. Depois ela via isso, depois. E foi para o carro, em transe, levando quase todos os filhos de volta pra casa.
Violeta, sua única esperança de um dia normal de volta às aulas, esperava encostada na porta. Não tem professor pra turma, disse a menina. Nem previsão. Vera se deixou cair no banco do motorista, pálida.
O dia seguinte seria do marido. Ah, seria!

Cornélius, Outra vez

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009.



Cornélius, o Último Inquisidor, me ligou esta semana desesperado. Tá vendo o noticiário?, gritou, do outro lado da linha. Sim, eu estava, mas disse que não. Menti que via o Big Brother, paredão, coisa e tal. Vem bomba, pensei. "Pois chega aqui, tô com parabólica, dois assuntos e o fogo aceso!", berrou. Hum. A santa inquisição do meu amigo sempre tem uma costelinha no espeto. Com sorte, uma picanha suculenta e cerveja gelada. Fui.
Era salsichão. E um pãozinho com alho que, em respeito à esposa e ao desconforto de dormir no sofá, dispensei. Cornélius estava enfurecido. De cara, me perguntou da brasileira na Suíça. Gravidez falsa, acusação falsa, ultrassom falso. Vai ver, nem mulher é, ainda faz um forrobodó internacional. Brasileiro se acostuma a enganar todo mundo e pensa que, lá fora, é igual, não dá nada. Tem que ser punida! Concordei, exemplarmente punida, mas se comprovada a farsa. E não na fogueira, brinquei. Ali era lugar de salsichão. Ele ficou quieto, mexendo no fogo, balançando a cabeça.
A melhor de todas!, gritou de repente, me fazendo pensar numa carne nova. Nada, só mais lenha na fogueira. E berro. Viu o FHC? Quer liberar a maconha, o animal! Um ex-presidente! Será que tá traficando? Virou Fuminho Henrique Cardoso? Ou sua próxima campanha será financiada por um consórcio jamaicano de bandas de reggae? Que, vivendo isolado numa ilha da Groenlândia, sem saber o que acontece, ele não está. Pô, até cego vê: a violência nasce do viciado, é ele quem sustenta o tráfico com furto, roubo, morte e dor em milhares de famílias. Baderna, incomodação e despesa dobrada para o Estado em saúde e segurança. Sim, pois a lei já deixa os caras livres, depois do xixi do juiz, pra continuar aprontando. Tanta gente sem trabalho, escola, moradia, comida no prato! E ele quer nossos impostos protegendo essa gente? Depois libera o quê? A cocaína? Ecstasy? Camisa do Grêmio?
Bá, nem me fala em futebol. O grenal não convenceu. Esse esquema sem esquema do Tite, hunf. E não gostei do que fizeram pro Brasil de Pelotas na tabela. Tragédia dupla: o acidente e agora aquele pé na segundona. Angustiado, já ia me despedir de Cornélius, o Último a Saber, quando ele tirou não sei de onde um pedaço de vazio e outro de cupim. Levou ao fogo. Disse que cada espeto simbolizava um dos dois que ele queria mandar para a santa fogueira naquela noite. FHC e a brasileira da Suíça. Nem perguntei quem era quem. E tratei de me aproximar foi de outra santa cerveja, afinal, os males do mundo sempre esfriam consideravelmente quando ela está gelada.

Cornélius, o Inquisidor


Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009.



Conheci Cornélius na agência dos Correios. Eu precisava enviar livros para São Paulo, ele queria um carnê do Silvio Santos. E passar na minha frente. Discutimos. Quis gerente, polícia e as mães em geral de muitas coisas. Passou na minha frente igual. Voltamos a nos encontrar no Café. Acabamos fazendo as pazes e me convidou para visitar a sua chácara, no Passo da Tortura. Perguntei daquele nome, se tinha algo a ver com a ditadura, revolução farroupilha ou outro fato histórico. Nada disso. Na verdade nem era nome, era apelido. Terras dele. E tortura vinha de torto mesmo, pelas curvas improváveis da estrada de chão. Tinha que ter um carro invertebrado e ser meio sambista para dirigir por lá, ele dizia. Debatemos um motivo para a construção de estradas sempre tão tortas, estreitas e esburacadas. Desistimos de uma conclusão lógica e fomos até lá tomar um mate.

Eu pesquisava para um livro sobre impunidade e este era justamente o assunto preferido no meu novo amigo. Tinha hábitos estranhos, o Cornélius. Dizia-se descendente de Torquemada, Pol Pot, Garrastazu Médici e primo da Joelma, da banda Calipso. Estranhei isso, só torturador na família. Explicou, era uma linhagem de inquisidores. Com uma missão divina. Por isto, mantinha o fogo de chão sempre aceso, onde esquentava água pro chimarrão, assava uma costela e esperava jogar os responsáveis pela crise mundial. Não só a econômica, explicou, mas essa crise toda, o fim dos valores, da zaga da seleção e etc. Naquele dia estava chateado. Com o carnê do baú, que deu em nada, e com os ministros do Supremo. Afrouxaram a rosca!, esbravejou. Ponderei, são roscas que não nos competem. Ele embraveceu pela décima vez, o Brasil precisava é de aperto, como é que homens da justiça estimulam ainda mais a impunidade? Pra bandidagem sumir do país ou desviar ainda mais dinheiro? Que pra ladrão de galinha nem existe isso de última instância. E não basta o nosso estoque de bandidos, ainda dão guarida a terrorista italiano?

Eu falaria sobre máfia, democracia, ampla defesa, etc. O problema é que também ando pensando. Todos andam. Partilhei um chimarrão, duas raivas e meia rapadura, fiz anotações e saí. Porém, Cornélius descobriu que sou escritor e policial, e me manda torpedo todo dia, pedindo ajuda para jogar os pecadores do caos na fogueira. A lista é enorme. E tem gente nas alturas, nem com escada magirus chegamos perto. Ele não desiste, joga mais lenha na fogueira, assa outra costela.

Via das dúvidas, volta e meia espio se o meu nome não entrou na lista. Nunca se sabe.

Mulheres (modernas) de Areia

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 29 de janeiro de 2009.





Essa questão da jornada de trabalho implacável das mulheres sempre gera discussão. Dona-de-casa não tem hora, folga ou remuneração digna. E, se trabalha fora, pior ainda. Jornada dupla. Ou tripla, quádrupla, quíntupla. Esposa, mãe, cozinheira, faxineira, costureira e por aí vai. Tudo numa só, conforme o choro do filho e o pedido (ou resmungo) do marido. Não é fácil. Por isso, as que podem e querem trabalhar fora contratam outra para fazer todo serviço caseiro (tá, todo não, o que se refere ao marido fica fora do contrato). E a modernidade também dá uma força. Com micro-ondas, freezer, cortadora automática, lavadora daqui, secadora dali, colchão ortopédico, enfim, uma vida muito mais confortável. Menos trabalhosa. Para que ela possa descansar ou cansar menos. Pois é. Aí, esta mulher, a mulher moderna, que a tecnologia ajudou a levar a vida com mais conforto, decide ir à praia. Para descansar, ela diz. Descansar!

Na casa de praia não há máquina de lavar. É tanque todo dia. Dê-lhe trabalho braçal. Sungas, maiôs e toalhas repletas de areia. Da família e, se facilitar, dos amigos que apareceram do nada. Aliás, é de areia o purgatório praiano. Umas vinte vezes por dia ela, que tinha faxineira em casa – e talvez a tenha deixado instalada na sua casa grande e confortável – precisa varrer o chão da casa e remover toneladas de areia. E cozinha, cozinha muito, que todos dizem que na praia se come qualquer coisa, mas acabam querendo pratos de peixes assim e assado, crustáceos cuja receita ela vai ter que descobrir, churrascão (que nunca fica só na carne) e o que mais aparecer. A fiação da casa dá choque, a mesa é pequena demais e se come sentado na grama, em pé ou no sofá. Aliás, o sofá vira cama, como o colchonete, ou na melhor hipótese aquele colchão velho e duro que, para não botar fora, se mandou para a casa de praia. Quando dois ou três filhos não dormem apertados na mesma cama – minúscula - que ela. Nada do colchão ortopédico, do travesseiro que já te conhece, do ar-condicionado. Praia é praia. Tudo assim, à meia-boca. Com mosquito, goteira e tudo mais.

Lá pelo meio da temporada, a mulher moderna, imersa na areia, até se pergunta, mas o que ela está fazendo ali? Acampada como se estivesse num front de batalha do Haiti, perde a novela toda noite. Talvez esteja aí a explicação para o fenômeno das sereias. Mulheres desesperadas se jogando no mar para viver por lá definitivamente. Ou, então, encarando a volta pela free-way congestionada numa felicidade que, enfim, a gente precisa entender.

O Socialismo da Praia

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 22 de janeiro de 2009.




Insisto há algum tempo: a praia é um lugar que comprova haver um socialismo possível. Principalmente em domingos e feriados. Sem censuras, prisões, muros, grades ou guerras. Sem, sequer, campanha política. O "homo praius", essa criatura que vem do "homo-sapiens" – quando este passa por uma metamorfose instantânea assim que avista o mar, biquínis minúsculos e caipiroscas de abacaxi - é um ser socialista ao extremo. Tão socialista quanto Marx, Trotski ou uma casa de swing jamais poderiam conceber. Naturalmente cheio de liberté e egalité (liberté até demais, diga-se passagem), despido de tudo, quase indígena. Um homem puro, o homo praius. Puríssimo.

Começa pela vestimenta. Ou por sua ausência quase completa. Barrigudinho ou marombado, siliconada ou com celulite, se desfila em pé de igualdade. Sem pudor ou preconceitos de estética ou cosmética. Todos se despem. Das máscaras, vestidos finos, paletós e uniformes. Não estarão em capas de revistas, mas mostram como realmente são. O que jamais numa reunião da empresa, clube ou associação comunitária, faria. O ano todo sob rótulos, o homo praius se nivela. E não está nem aí. Quer mais é curtir o sol. Quase um animal, na areia. Mas no ápice de sua racionalidade possível. Apenas humano.

E tem mais. Na praia, todos os pares são possíveis. Toda aventura amorosa é plausível, todo amor é inesquecível e todo preço do botijão de gás também. A praia é assim. Única. Efeito do sol? Do sal? Do aumento do pedágio? O fato é que algo transforma o homem quando ele chega por lá.

O homo praius não quer latifúndio. Ao contrário, contenta-se com minifúndios restritíssimos, suficientes para uma esteira, guarda-sol, uma ou outra cadeira de abrir e uns baldinhos de areia. O dono da maior exportadora de perfumes chiques e o desempregado. Lado a lado, com o mesmo pedaço de terra – incrivelmente minúsculo, se for feriadão – e exercendo a boa vizinhança. Sem CPF, IPTU, MST. Nada. Bons e respeitáveis vizinhos, iguais perante à areia e à sujeirama que ali depositam. Pelo menos até que uma bola de frescobol os atinja. Ou se surpreenda um close demorado no bronzeador que passeia na mulher do próximo. Senão, tudo é paz.

Mas há uma invasão capitalista iminente. Camuflada. E ela vem com agentes disfarçados de vendedores de canga, óculos, sonho, picolé e por aí vai. Daqui a pouco tem banco eletrônico na guarita do salva-vidas. O FMI acampa em Imbé. E o homo praius, como os índios, vai acabar achando que dá mesmo para botar fogo na água.

Claro, se é que a Bolívia já não tornou isso possível.

A Casa (na praia) da Mãe Joana

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 15 de janeiro de 2009.





Tenho um amigo, o Vito, que tem casa na praia. Quer dizer, ele não, a mãe. Mora lá, a Dona Joana. O Vito tirou um mês de férias para veranear, fazer companhia à mãe, descansar um pouco, pescar, dormir na rede, essas coisas. Relaxar. Contabilidade, o negócio do Vito. Dez horas por dia de números, todo dia, o ano todo. A mulher é professora em colégio público. Outro estresse. Seria eles, Dona Joana e os dois filhos numa praia pequena. Perfeito.

Aí a filha pediu para levar a melhor amiga. Para ter com quem sair, já que o pai só sai para pescar e buscar cerveja. E olhe lá. A mãe prefere ler na rede, de onde só levanta para se bronzear ou fazer comida (não queria, mas o marido pede para dar uma força à Dona Joana). Tá, podia levar. A adolescente então lembrou da outra, que também era melhor amiga. Levar uma só daria ciúmes e com melhor amiga não se brinca. Tudo bem, iriam as duas. O filho protestou, também queria levar amigo. Foram.

O amigo do filho apareceu lá com a namorada. Que levou uma amiga para apresentar, mais o irmão caçula de sete anos, asmático. Tudo bem, tudo bem. Um dia depois chegou o Beto, do escritório. Trazendo mulher, filhos, sogra e papagaio. Vou ficar só uns dez dias, ele disse. E o Vito lembrou que fez a bobagem de comentar no trabalho que iria à praia. A mulher do Vito não achou justo e ligou para duas colegas de escola. Vieram no mesmo dia. Com maridos, filhos, cachorro e uma tonelada de bagagens.

Dez dias e o Vito pirou. Cinqüenta e nove pessoas na casa. Pranchas de surfe substituindo portas, travesseiros e colchonetes soterrando paredes. Parecia a Faixa de Gaza, não pregava o olho. Crianças corriam pela casa aos gritos, quebrando uma louça a cada 3,7 minutos. Dois carros com som a mil a noite toda e uma banda de pagode acampada na garagem. Fora as boladas na cabeça toda vez que surgia na porta. Quando quis ir ao banheiro, apertado, e o mandaram entrar na fila, ele teve um chilique. O Vito. Gritou para que fosse todo mundo embora dali, e agora! Um surfista saradão o mandou ficar quieto, era amigo do dono, os incomodados que se retirem. O Vito, que nunca viu aquele cara na vida, furioso, apanhou uma barraca e foi acampar no terreno ao lado. O terreno de um juiz. A última vez que viram o Vito, ele entrava num camburão. Algemado.

Dias depois ele voltou ao trabalho, abatido, mas feliz por ter cortado as férias no meio. E os novos amigos também. O único problema era o time de futebol lá do bairro. Queriam saber do ônibus alugado. O Vito iria ou não iria pagar, afinal?

Entre Feras e Pingüins

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 10 de abril de 2008.


E brasileiro ainda quer fazer parte do Primeiro Mundo. Para quê? Ter tecnologia, serviço público eficiente, menos impostos e não precisar de guarda-costas a cada vez que levar o cachorro para fazer pipi? Torcer o nariz para latinos, africanos, asiáticos e todos esses aí, que a Cruz Vermelha chama de gente? Quem sabe ter um presidente envolvido com escândalos sexuais, ou mandando adolescentes para a guerra, desde que falasse corretamente. Ser conterrâneo de Shakespeare, Da Vinci ou Voltaire, em vez do Adriano Gabiru, até dá para entender. Por isso que, quem pode, viaja. E volta falando arrastado, lamentando que ficaria, se pudesse, não fosse a empresa, as charges do Versa ou a gravidez da filha – não que uma coisa tenha a ver com a outra, claro.
Porém, a "nata" da civilização também tem suas mazelas. Em março, escolas inglesas adotaram livros com contos de temática homossexual para trabalhar com crianças. King & King, a fábula de um príncipe que rejeita três princesas para ficar com o irmão delas, e "And Tango Makes Three", sobre o amor entre pingüins machos num zoológico de Nova Iorque. Pois bem, mal os pingüins vestiram seus fraques rosas, os livros foram proibidos. Ou os professores seriam linchados por fanáticos religiosos.
O duque La Rochefoucauld dizia que a verdade jamais conseguirá fazer um bem que se compare ao mal que as suas máscaras provocam. O mundo está aí. Pleno de informações, fatos, imagens, liberdades, inovações, rompimentos e transformações. Não há mais como proteger ou separar as crianças da realidade. Ou elas aprendem o contexto onde estão inseridas e suas conseqüências pela mão de pais e professores, ou saberão através de estranhos. Aí, leva quem convencer. Drogas, violência, sexo? Precisa ser debatido cedo, em todas as suas variantes, junto de quem se confia. Aquelas fábulas, nas escolas inglesas, tinham o propósito de que a criança entendesse certos fatos antes de descobrir e se assustar. De conhecer de forma distorcida ou criminosa. Não era estimular – não se fazia campanha pró-gays -, mas preparar para o que acontece de forma suave. Esconder é coisa do tempo da cegonha. Deixar proibido, ou distorcido, é correr o risco de efeitos ruins e irreversíveis.
Deixem os pingüins namorando, inocentes, no imaginário infantil. Pior é abrir caminho para as feras e suas vítimas. E proibir livros é grave, Umberto Eco que o diga. Sem ele, não saberíamos do Livro do Riso, de Aristóteles. E talvez, até hoje, achássemos chique ser emburrado.