Criaturas Crônicas

Crônicas e artigos publicados pelo escritor Oscar Bessi Filho.

Quinta-feira, Agosto 20, 2009

Briga de Vizinhos

Jornal Ibiá, Coluna Semanal, 20 de agosto de 2009.

Tem gente que gosta disso. Baixaria. Ouve uns gritos e já corre para ver o que é. Não quer perder um detalhe. E, quanto mais palavrão e porrada, melhor. Fica inclusive decepcionado se o fuzuê termina. É capaz de meter uma provocação só para não deixar que agito acabe. Somos assim, sádicos. Debate sem político se engalfinhando é morno. Postinho sem algazarra não rola. Nós, os homo sapiens. Metade homo badernus, metade homo fofocus. Gostamos de circo. Se ele pegar fogo. Aí, tiramos foto e colocamos no orkut. Em briga de marido e mulher, chegamos bem perto e alcançamos a colher. O importante é ter o que falar.
No Reino da Bizarreia, estão ficando craques em baixaria. A mídia deitou e rolou com bate-boca no Senado, faniquitos palacianos e gravações a mil. Até que, na última semana, decidiu ela própria ter seus ataques de histeria. As duas maiores redes de televisão do Reino resumiram seus noticiários em ataques, contra-ataques e peripaques diários. Bispo que rouba de cá, aliado da ditadura que já roubou de lá, e por aí vai. Infelizmente, com isso os dois ainda ganham audiência. É uma novela. Todos querem saber a próxima maracutaia que o outro revelará, na voz de seus locutores galãs fingindo indiferença ou estardalhaço. Por um lado, é bom. A vantagem de dois gigantes se engalfinharem é ver como eles jogam, um na cara do outro, suas maracutaias antes compartilhadas. Os detalhes sórdidos e sátiros. Ainda mais quando aliados - caso do Senado - ou achacadores, de jeito muito parecido, da mesma cumbuca - a grande mídia. Igual briga de vizinhos. Um sabe o podre do outro. Da hora em que o arroz queimou até o gato na luz de vinte anos atrás. Além daquela noite dormida na varanda. O melhor era ficar quieto.
Porém, há solução. Por mais que a demência seja parte de nossa natureza esquisita (sim, somos seres esquisitos, fazemos dieta, ouvimos Calypso e ainda torcemos para o Grêmio - eu, no caso, só faço dieta). Nós, aqui, temos a TV Cultura. Então digamos não às tevês da Bizarreia. Só vamos assistir TV Cultura. O dia todo. À noite também. Nada de Juliana Paes ou Ana Hickmann. Troquemos as duas pelo Leandro Utzig. Que tal?

4 comentários:

Lucas Diemer disse...

Na sociedade hoje, tudo é descartável - até mesmo os conceitos. Em um momento, as pessoas acreditam e se entregam para uma coisa e, em outro momento, as pessoas são levadas a procurar outras filosofias e idéias. Lembro de Gregório de Mattos, quando de ele disse "A firmeza somente na inconstância", mas acho que não há firmeza mais, nem segurança. E resto não é silêncio, mas sim um grande barulho. Veja que os clichês literários (que escondem verdades importantes) vão sendo suplantados pelas futilidades sociais. Muito barulho por muita coisa!
Esse é um texto verdadeiro, Oscar! As pessoas precisam conhecer a si mesmas (olha o Sócrates!) e ver o que estão fazendo.

Pedro Stiehl disse...

Tchê Oscar
Legal é que é tudo verdade!! Há um mundo por trás das aparências éticas. E ele é bem mafioso. Só que a gente fica sabendo. Mas aí já levaram um caminhão de dinheiro público. E as escolas não tem dinheiro pra álcool gel. Crônica no nível do grande cronista. Um senão sobre o final: podes ficar com o Leandro. Eu fico com as outras duas. Só prum bate papo, claro. Pra outra coisa, na minha idade, só levando o Cari junto.

Oscar Bessi disse...

Por aí, Lucas. Por aí. Até eu, agora, vou olhar para mim mesmo e ver o que estou fazendo. Afinal, com um comentário inteligente destes num texto que mal conseguiu ser cômico, vou te contar. Nem sei o que responder. Vou me jogar no rio. Quer dizer, no rio não, que tá frio e não quero tropeçar em cadáveres de mutantes. Mas valeu, valeu mesmo. Agora vou lá no teu blog! abraço!

Oscar Bessi disse...

Pedro, se eu ficar com o Leandro, vou exigir que ele faça comigo o que elas são capazes de fazer. Ué. Direito do consumidor é isto. Se bem que o que elas fazem é só me torrar a paciência. Bem que eu queria mais, mas na fase que eu ando... Obrigado pela visita e pelos comentários gentis (ui!). Abraço, meu Mestre!