Criaturas Crônicas

Crônicas e artigos publicados pelo escritor Oscar Bessi Filho.

Quinta-feira, Julho 23, 2009

Paranoias

Jornal Ibiá, quinta-feira, 23 de julho de 2009
Não adianta. A humanidade é paranoica. Ou hipocondríaca. Ou muito esperta, nalguns casos. Mas só nalguns casos. Que tirar proveito de tudo, ô, não é para qualquer mortal. Tem que ter talento. Praticar isto diariamente, feito exercício físico. Assim são os ladrões. Os corruptos. Os vendedores de terreno no céu e os roteiristas de novela. Vivem disso. Aliás, li a manchete de um jornal, trinta anos atrás. Movimento declara guerra à corrupção no Brasil. Ah. Deve ter sido uma guerra injusta, pelo jeito que a coisa anda. Os adversários devem ter usado armas químicas, ou biológicas. Ou psicológicas. Só sei que se deram bem. Trinta anos e aqui estamos. Desse jeito. Em 1979, lembro, eu era uma criança feliz. Cheguei em Montenegro, meu time foi campeão nacional e o General Figueiredo era apenas um senhor simpático que andava a cavalo. Eu acreditava em disco-voador e que o Monstro do Lago Ness existia. Guerra contra a corrupção? Não lembro. Acho que não dei bola. Afinal, para histórias da carochinha eu já estava bem grandinho.

Os espertos são assim. Percebem nossa paranoia, nossa fácil histeria coletiva, nossa sede íntima de uma boa desculpa. É. Para não ir trabalhar, para não ser tão honesto, para colar na prova de matemática e cruzar o sinal vermelho. O que queremos é uma boa desculpa. Ou várias boas desculpas. A bola da vez é a gripe suína. Para explicar a saúde pública caótica, as emergências lotadas e, pasmem, cogitar a volta da CPMF. Não sei como não colocaram nela a culpa pela morte do Michael Jackson. E da zaga do Inter. Pobres suínos. Entre eles, devem pensar que a doença humana fez muito pior, mas ficam frios. E viram frios, também. Que a doença humana é o que mata mais neste mundo. O homem mata os outros. Mata o planeta. O homem mata o homem, quando não tem mais o que fazer. Mas, com raras exceções, não fica histérico nem horrorizado com a sua própria presença.

Máscaras, eis a saída. Mascarar sempre foi a solução e trouxe a humanidade até o terceiro milênio. Vou comprar uma máscara, também. Para assistir o noticiário. Quem sabe assim escapo do contágio do senador. Que, confesso, neste caso ainda sou meio paranoico.

2 comentários:

Stiehl disse...

Como sempre, um belíssimo texto. Sobre máscaras para encarar a vida, sugiro Personas Sexuais de Camille Paglia. Sempre é bom sabermos que máscaras são nossas opções desde a idade da pedra.
Um grande abraço

Pedro

Jussara Lothamer disse...

0TIMA COLUNA PRA VARIAR UM POUCO, OBRIGADO POR NOSSAS QUINTAS COMEÇAREM BEM.OBRIGADO PELO QUEVCS ESTAO FAZENDO CONTRA OS MELIANTES DA CIDADE.BJUS QUERIDO E UM BOM FINDI.