Criaturas Crônicas

Crônicas e artigos publicados pelo escritor Oscar Bessi Filho.

Domingo, Maio 24, 2009

Tá complicado

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 30 de abril de 2009.




Cornélius, o Inquisidor, jogou a toalha. E água na fogueira. Desistiu mesmo, limpou a faca no joelho e murchou num chimarrão frustrado. Não dá, ele me disse, não dá. Se jogar na fogueira os responsáveis pela baderna, não sobra viva alma sobre nosso país tropical. Olha isso, das passagens aéreas. Que deputados metem a mão, a gente já se acostumou. Agora, a Comissão de Ética da Câmara na falcatrua? De Ética? Aí dói. Agora dá pra dizer que generalizar não é pecado, sobre o caráter político nacional. Não é. Agora, pasmem, o Tribunal de Contas da União também se perdeu nas contas, contou com passagem indevida e mergulhou de toga e tudo na lama. É dose. País mais sem educação, este. Sem educação, é, mas conseguiram dar um jeito de desviar verba até no ProUni. Aí deu. Nossa degeneração moral tá pior que epidemia do crack e gripe suína. Pegou todo mundo. Como é que vai se condenar alguém num randevu desses?, ele questionou. E o pior de tudo é que pedir justiça ficou meio esquisito, depois do episódio Daniel Dantas e aquele festival de polícia prende, STF manda soltar. Tá num ponto em que ministro do Supremo, Gilmar Mendes, já precisa implorar pelo respeito que perdeu. Tá difícil, Cornélius. Ser brasileiro anda mais complicado que torcer pelo Aimoré. Mas, sei lá, deve ter umas luzes de honestidade perdidas por aí. Meio sem pilha. Mas tem.
O problema é o trauma no cotidiano. A gente sai à rua pensando que vai ser achacado, enganado ou assaltado – neste caso, o assaltante é o mais ético de todos, pois diz claramente que quer te roubar. Sorteio que não sabe se paga o prêmio, consórcio que evapora, produtos cujos ingredientes ou pesos nunca fecham com a embalagem, serviços que não se confirmam, coisa pública a beneficiar o privado, privatização que não se publica, falcatrua, falcatrua, falcatrua. Um pirulito para uma criança precisa ser checado antes de abrir. E, se alguém te estende a mão na rua, o negócio é sair correndo. Ainda mais se ele estiver sorrindo.
E teve gente que, um dia, acreditou que o que acabaria com o planeta seria a pobre da bomba atômica.

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