
Encontrei o Badanha no centro, acabrunhado. Lia um desses panfletos que, mancomunados com tickets de estacionamento e cocôs de passarinho, dedicam-se a aniquilar pára-brisas de carros. Sujeito puro, perdeu as espinhas da adolescência há algumas décadas, mas ainda crê em coisas como amor livre e Monstro do Lago Ness. E, claro, quer mudar o mundo. Nem que tenha que pedir CPI e entregá-lo aos ETs (ou ao presidente do Supremo, mas isso foi antes do Gilmar Mendes). Ele tem uma teoria para o caos: foi Deus dar uma descansada de um dia e os ratos tomaram conta. Imagine, então, se Ele tivesse sindicato. O Sindicriamundo. E entrasse em greve por férias, jornada semanal e licença-paternidade. Multiplicada, que ser de Pai de todos não deve ser sopa. Dá para imaginar Deus de folga? O planeta já teria explodido, a fauna desaparecido, o Celso Roth retornado. Até achei que o Badanha, ali. Não. Estava triste porque esquecera o dia das mães. Não adiantava mais comprar presente, nem visitá-la, ele disse. Opa! Como assim?
Acontece que ele é muito bonzinho, mas só lembra da mãe quando precisa. Não é o único. Olha o escândalo das passagens aéreas. O povo arcar com viagens de mulher de parlamentar, tudo bem. Às mães, que os colocaram no mundo (e lá fomos nós que os colocamos, elas não têm culpa de nada), nem pelota. É uma campanha universal contra a figura materna. Talvez visando a família, a escola, a ordem ou qualquer outra proteção contra o caos. Tem mãe que já precisa chamar a polícia para fazer o filho obedecer. Tem mãe tão novinha que nem sabe que é mãe, tem mãe jogando filho no lixo. Aí, deu. É o auge da crise de valores, pior que crise da bolsa e mais virulenta que gripe suína. Mãe é mãe. Mais que um simples dia, mais que um cartão colorido e tchau. Mãe é vida. Origem, essência, referência. Tem que saber o que é. Saber ter, saber ser. Muito mais que a atenção burocrática de meio dia e fim de papo. Um domingo não redime a humanidade. É tipo CPI. Peito estufado com voz carregada, depois chá de sumiço, qualquer um. Tem é que ir além. Muito além.
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